capa: você costuma separar a arte do artista?

você costuma separar a arte do artista?

dá pra continuar lendo Harry Potter sabendo do ativismo de J.K. Rowling? sobre Picasso, Ye, Johnny Depp e o que fazer com obras de gente problemática.

será que faz sentido continuar lendo os livros do Harry Potter sendo que autora é assumidamente transfóbica? ouvir, com o som no talo, as músicas do Ye — um cantor que se autodeclarou nazista? se dizer fã do Johnny Depp, mesmo depois de ele ter sido acusado de violência doméstica?

continuar lendo Harry Potter ou guardar na gaveta da infância?

o debate surge depois de, mais uma vez, J.K. Rowling se envolver em (outra) polêmica por seu ativismo contrário à inclusão de mulheres trans em pautas de gênero. (para fins de contextualização, a autora da saga postou uma foto celebrando a decisão da suprema corte britânica que define legalmente o conceito de mulher com base somente no sexo biológico).

diante disso, o que faço com minha obsessão pela pedra filosofal? guardo na gaveta da minha infância e lá deixo para apodrecer? a questão é que a discussão é um pouco mais profunda e, além disso, muito antiga.

o renomadÍSSIMO Picasso, por exemplo, já foi acusado de misoginia em um livro escrito por sua própria neta, em que relata os maus-tratos que o pintor cometia contra suas esposas, musas e amantes. ao tomar ciência desse fato, o que fazemos com suas peças? deveria a comunidade artística desconsiderar as contribuições e técnicas que o pintor deixou?

de acordo com o professor Pedro Vaz Perez da PUC Minas, é possível SIM fazer essa diferenciação, uma vez que o produto final é baseado na visão de diversos contribuidores:

“eu gosto de pensar que o artista produz uma obra e, no momento em que ela está pronta, ela passa a não ser mais dele (…) no cinema (…) não é só o diretor que está ali, ainda mais em um filme, é toda uma equipe de cineastas e o diretor, muitas vezes, é só mais um deles. pode ser até o cara que tá mais à frente, mas essa obra costuma ser coletiva.”

pedro vaz perez — puc minas

voltamos ao início:

separar a arte do artista ou não dá pra dissociar?

será que a obra deve ter valor por si só, independentemente dos valores atribuídos a pessoa de quem a criou?

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